Não seja um relógio de pulso

NÃO trabalho de graça. Por motivo algum. Seja em literatura, música, jornalismo, tradução, remoção de entulhos, ridicularização de facínoras (se bem que…). A exceção, claro, são as coisas que faço pessoalmente em meu próprio blog, em sites de amigos ou em esquema “do it yourself”, visando algo maior mais para a frente, em uma estratégia pessoal. Mas se envolve terceiros e se esses terceiros estão ganhando grana, de forma alguma vou trabalhar de graça. Por isso nunca enviei submissions seja de texto, música ou o que quer que seja para diversos lugares que eu sei que “pagam em exemplares” ou “permitem que o autor compre mais barato” (nossa, que bom).

É enorme a quantidade de editoras, gravadoras, sites, veículos de imprensa, boates, festas e outros espertos que acham que o músico, o escritor, o DJ, o fotógrafo, o artista plástico, o designer, não deve ganhar xongas com o seu trabalho. “Ah, mas você vai ter uma ótima exposição do seu trabalho”. Dane-se, sinceramente. Os seguranças da festa e os barmen sempre são pagos. A gráfica e a distribuidora sempre são pagos. O técnico de som do estúdio sempre é pago. O editor tira a sua parte. O dono de gravadora tira a sua parte. Então não me venham com essa de que o escritor/músico/whatever, que é justamente a figura sem a qual não existiria a porra do livro/disco/festa, deve ser o único a trabalhar de graça.

E tenho essa posição por vários motivos: a primeira é que quem trabalha de graça é relógio e mesmo assim ele ganha uma pilha ou corda. A segunda e principal é que trabalhar de graça envia vários sinais. Que seu trabalho não merece ser remunerado. Que você é um amador. Que o trabalho de seus colegas de atividade/arte não merece ser remunerado, por tabela. Que o mundo deve ser utilitarista, um parque de diversões controlado por sub-mecenas que dão esmolas invisíveis. Que seu esforço pessoal e dedicação em se aprimorar devem ser tratados da mesma forma que a casualidade do mero diletante.

Diga NÃO ao trabalho que não te paga. É melhor fazer você mesmo.

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Alex Mandarino

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