Rato do mangue

Mais uma boa e positiva resenha do Rei Rato, de China Miéville, que traduzi em 2011 para a Tarja. Diogo Besson acerta em cheio: se fosse brasileiro não seria jungle, mas Manguetown. Adoro manguebit (ou manguebeat?), boa comparação.

"É também cheio de musicalidade, com referências ao Jungle e Drum'n'Bass, e possui descrições tão detalhadas da sonoridade que com alguma concentração você quase até consegue ouvir o som saindo das páginas."

Posted on April 11, 2014 and filed under Literature.

Entitled

Uma palavra que define bem o brasileiro não é uma palavra em português: "entitled". Sem correlato na nossa língua. Significa a pessoa que "se acha no direito de" ou, como bem sabem os certos, "se acha". Não haver sinônimo por aqui é curioso. Reza o clichê que os esquimós teriam diversas palavras para "neve", o que é compreensível: o ser humano tem essa tendência esquisita de dar nomes às coisas e coisas muito comuns e abundantes ganham vários nomes. A diferença é que o esquimó, obviamente, tem consciência da neve. O brasileiro não tem consciência de seu "entitlement". Daí a ausência de uma denominação para esse comportamento em português.

A turma que "se acha" é enorme, variada. Tem gente que se acha no direito de andar em fila na calçada, esbarrando nas pessoas; de avançar sinal vermelho e acelerar na direção do pedestre; de humilhar mulheres que passam; de roubar dinheiro público; de ocupar espaço público; e de todos os outros males que conhecemos tão bem e reconhecemos tão pouco.
O direito alheio, por outro lado, nunca é reconhecido. O direito de espaço público, porque ainda "se acha" por aqui que o "público" é uma espécie de privado coletivo. O direito à tristeza, à introversão, à diferença, a não gostar de culturas eternamente "de raiz", de futebol, de carnaval. O direito de ser diferente, minimamente que seja.

"Entitled" se traduz, não corretamente e nem diretamente, por arrogância, afronta, complexo de inferioridade mal metamorfoseado em complexo de superioridade. Outros povos e culturas têm seus valores calcados na educação, no respeito mínimo ao próximo (nem que seja sustentado por leis e multas), no respeito ao espaço alheio, às opções plurais, ao outro. Nossa colonização nos legou o avesso disso tudo. Principalmente no Rio, que sofre por já ter sido capital do império e da república e continua sofrendo por ser nossa capital midiática, é bem visível um comportamento de "entitlement". Porque o respeito e a educação não são a base da sociedade, mas sim a hierarquia monárquica, aristocrática. Em uma sociedade em que as pessoas têm mais direitos dependendo de quem elas são ou conhecem, o rumo natural das coisas é que todos passem a fingir que são ou conhecem "alguém". Todos os rios aristocráticos de bananas deságuam no "entitlement".

O outro efeito colateral da nossa colonização sui generis é a inação. Há o direito de avançar sinal e ouvir música ruim berrando em carros estacionados nas calçadas de madrugada, mas direitos básicos como os de reclamar e protestar não são reconhecidos. Afinal, quem reclama só reclama porque não "é" nem conhece "alguém", então com isso demonstra sua posição de fraqueza na gangorra, que - claro - por essa lógica da entitlezação (calma, xenófobos) não pode e nem deve ser respeitada. Vem daí também nosso apreço pelos militares, figuras que nesse imaginário órfão de uma monarquia corrupta preenche as lacunas deixadas com seu anormal apreço pela hierarquia, pelo vinco nas calças e pelas árvores pintadas de branco. No mundo militar, quem você é e conhece está estampado no seu peito.

O pior dos efeitos colaterais é o que condiciona o valor do que você faz a todos esses fatores. Não importa se sua banda/livro/festa/filme/tese é boa, importa se seu sobrenome é Silva ou Guinle ou se você mora em Nova Iguaçu ou na Gávea. Distorções espaço-temporais estranhamente preservadas e cultivadas pelos setores supostamente "alternativos" da cultura carioca. Ironicamente, em uma terra onde todos acham que têm todos os direitos possíveis, ninguém tem direito algum. Como comprovam as notícias diárias - há décadas. Há séculos. Na terra do "entitlement" irreconhecido, o que acaba prevalecendo é o nada.

Posted on April 4, 2014 and filed under Rant.

The Mac: 30 Years Tonight

The Mac is completing 30 years since its first iteration in 1984. This site has a great interview with some of the men behind Apple: Phil Schiller, Craig Federighi and Bud Tribble (who "was there" in 1984). Some of the best excerpts:

Federighi: "Sometimes you want a large display, with many different windows open, and sometimes you just want to lay back on the couch or are standing at the bus stop. “There’s a natural form factor that drives the optimal experience for each of those things. And I think what we are focused on is delivering the tailored, optimal experience for those kinds of ways that you work, without trying to take a one-size-fits-all solution to it.”

Schiller: (***) in some ways the success of the iPhone and iPad takes some of the pressure off and “gives us the freedom to go even further on the Mac.” Now the Mac doesn’t have to be all things to all people.

Without the Mac, graphic design, music, films and even literature wouldn't be the way they are today.  Worth your reading.

Posted on January 24, 2014 and filed under Tech.

Rushkoff e o presentismo

Este artigo do Douglas Rushkoff e seu mais recente livro, Present Shock, me fizeram pensar sobre esse conceito do presentismo. Lembro de um período entre 1995 e 1999 em que a Internet e a cybercultura (termo, aliás, que morreu mais ou menos após essa data por pura imanência) exalavam otimismo e renovação. Na época eu atuava como jornalista da área de tecnologia, editando a revista Conecta, uma tentativa de criar uma Wired brasileira – apenas para perceber que “Wired” e “brasileira” eram excludentes – e, mais tarde, um caderno semanal de informática e tech. A Internet ainda não era sinônimo de web, já que a world wide web ainda era apenas uma parte da rede. A parte mais proeminente, claro, mas uma parte. Esse mundo de usenet, fóruns, blogs, vlogs, home pages (lembram desse conceito?), IRC e ICQ ficou para trás com a chegada em cena de Google e Facebook e de novas tentativas de cercar a web em murinhos corporativos, nos moldes da antiga AOL. E, dessa vez, de forma bem-sucedida, infelizmente. Para muita gente, a web é o Facebook e a home page por excelência é o Google, portal para a biblioteca de Babel (fish) à moda Skynet.

A web 2.0 não trouxe apenas novas formas de interatividade e aplicativos oriundos da nuvem, mas também uma hiperconectividade que tenta puxar assunto com a gente a cada segundo. Como diz Rushkoff em seu artigo, a hiperconexão faz com que a gente sinta cada solavanco da estrada. Eu mesmo sinto isso. Acompanho posts, newsfeeds, blogs, tweets. Se não fosse assim, teria visto esse post do Rushkoff? Teria imergido nesse zeitgeist e, assim, sido capaz de tentar escrever sobre ele? Ignorance is bliss?

Sentir e reagir a cada solavanco na estrada é agir como o mapa em tamanho real do conto de Borges. Hiper-ultra-detalhista, mas de total impraticidade. A realidade é substituída por um construto emulador de realidade, que a incorpora sem ser parte dela.

Antes de apreender os fatos, de sabermos o que aconteceu, todos nós já temos opiniões formadas, instantaneamente. Dessa forma, o hiperacesso a um mundo informatizado, o excesso de informações e dados, leva a uma reação similar à de um mundo primitivo, ignorante, preconceituoso e religioso. O excesso e a falta nublam os fatos, restando no prato apenas as migalhas do achismo e, agora, do achismo imediato.

Os processo decisórios de gabinete se tornam mais secretos ainda, com passos importantes sendo tomados longe dos olhos do público. Até o final do século XX, a opinião pública acompanhava fatos, ações, reações, emitindo (ou não) opiniões abalizadas (ou não) ao longo deste caminho. Agora as opiniões são processadas e emitidas quase paralelamente aos fatos. Isso evapora rapidamente o zeitgeist investigativo e, quando afinal chega o momento em que se tomam decisões oficiais, o presentismo já fez o público mudar a atenção para outro meme e assim as decisões acontecem em silêncio, sem despertar interesse como nas fases iniciais logo após o fato. Nesse aspecto, o presentismo mais uma vez aproxima a reação da população ao de uma aldeia medieval feudal: decisões de gabinete, à revelia. Interesses estreitos e efêmeros.

A vida cotidiana nos priva de tempo de lazer, de tempo fluindo. Temos tempo picotado, post-its cronais que se substituem infinitamente, tweets, sms, likes, mails, pins. O anseio por um tempo perene, amplo, se mistura ao grito primal que clama mais uma vez pela floresta perdida, seja física ou mental. Essa necessidade do perene e do claramente arquitetônico dão origem a formas narrativas não centradas em protagonistas, mas em clãs, onde personagens que morrem não trazem o fim da história, mas são substituíveis. Mundos abertos onde a floresta, o mapa, a cidade, o reino, a planta do prédio são o personagem: Game of Thrones, Lost, World of Warcraft, universos como os da Marvel - que agora, não por acaso, chegam ao cinema -, os reality shows. Perenes, sem fim, mundos imersíveis. Roletas que não param, não importa que números apareçam, se predomina negro ou vermelho e se jogadores são expulsos da rodada: o mundo permanece. Algo essential em tempos quase-apocalípticos, nem que seja um mundo ficcional. Mas Baudrillard já não nos deu permissão para relaxar e gozar nesse construto?

É um mundo sempre presente, nos dois sentidos do termo: o espacial e o temporal. E é um mundo interativo e iterativo: nada é definitivo, nada é novo ou velho, é apenas presente. Tudo é beta, tudo deve trazer em seu bojo a perturbadora mas reconfortante possibilidade de eterna renovação, de varrer para longe os pequenos detalhes errados, os enganos, sem parar o fluxo, seguindo sempre em frente em uma peregrinação rumo a um estado de perfeição que nunca chega, que nunca pode - e nem deve - chegar. Não queremos isso, na verdade. Daí a iteração, o eterno recomeçar. Uma pedra rolada montanha acima, mas em uma montanha perfeitamente plana, planície que se faz de montanha.

Ironicamente, o presentismo e a mera ilusão de mudança acontecem em um momento em que amamos e idolatramos o mito religioso do crescimento econômico. Crescimento esse que soma e subtrai, nas mesmas iterações ilusórias que se passam por narrativa. E em nova ironia, é o mesmo presentismo nascido da tecnologia que talvez nos (e)leve para o patamar do não-desejo, do conceito budista do foco no presente.

Ou não. Até a próxima iteração, talvez.

Posted on January 21, 2014 and filed under Tech.

Hiriburu no Argos 2013

Meu conto Hiriburu é um dos finalistas do prêmio Argos 2013, a mais importante premiação de ficção científica do Brasil. A história foi publicada ano passado pela editora Terracota na coletânea Caminhos do Fantástico. Curiosamente, isso acontece exatos dez anos depois de outro conto meu, O Rabo da Serpente, ter sido finalista do mesmo prêmio Argos, em 2003. Na torcida dessa vez!

O prêmio Argos é concedido pelo CLFC, o Clube de Leitores de Ficção Científica. Meu enorme "muito obrigado" a todos os que leram Hiriburu e votaram nele para finalista. A premiação acontece no dia 22 de setembro, dentro do evento Fantasticon. Colo aqui a lista completa dos finalistas.

Na categoria história longa:

O Alienado, Cirilo S. Lemos – Editora Draco
Kaori e o Samurai sem braço, Giulia Moon – Editora Giz Editorial
Sozinho no deserto Extremo, Luiz Bras – Editora Prumo
Territórios Invisíveis, Nikelen Witter – Editora Fantas

Na categoria história curta:

As Filhas de Cassiopeia: a Ofensiva Draconiana, Hugo Vera – Space Opera II – Editora Draco
Hiriburu, Alexandre Mandarino – Caminhos do Fantástico Vol.1 – Editora Terracota
No vácuo você pode ouvir o espaço gritar, Carlos Orsi– Space Opera II – Editora Draco
Obliterati, Fábio Fernandes– Space Opera II – Editora Draco

O escritor Bráulio Tavares receberá um prêmio pelo conjunto da obra.

Posted on August 27, 2013 .

As Horas de Tolentino

No dia em que Leonard se vai, por acaso leio um artigo sobre a morte de Bruno Tolentino, em 2007, aos 66 anos. Tive a chance de entrevistar este poeta em 1993, quando esteve de volta ao Brasil para o lançamento de seu As Horas de Katharina. De origem aristocrática, teve seu espaço no Brasil diminuído em prol de suas polêmicas. Pregava uma nítida diferença de qualidade e relevância entre a alta cultura erudita e a cultura popular e ganhou desafetos importantes ao esculhambar a música popular brasileira e os poetas concretistas dos anos 50 (principalmente o trabalho destes como tradutores). Pupilo de W.H. Auden, professor em Oxford, Tolentino impôs-se um auto-exílio por Inglaterra, França e Itália e dizia-se um "exilado artístico". Na Inglaterra, passou dois anos preso por engano, em um erro policial que mais tarde fez com que ganhasse o perdão da Coroa inglesa. Dois anos que passou ensinando os presos analfabetos não apenas a ler, mas a criar gosto pela leitura de ficção e de poesia.
Como pude comprovar na entrevista, nem as raízes aristocráticas e tampouco o apreço pelo rígido formalismo estético o tornavam uma pessoa arrogante. Eu tinha 23 anos na época e lembro de ter ficado surpreendido com a humildade e educação de Tolentino, ao passo em que, como pude comprovar várias vezes como jornalista, diversos nomes maiores ou menores da cultura mais popular demonstraram uma rude egolatria.
A alienação de Tolentino para com aquilo que chamava de "extrema brasilidade exagerada" da literatura nacional possui um certo paralelo com as críticas de Borges ao cenário literário argentino. No fim das contas, cultura é universal e, acredito, é de todo desnecessário buscar uma "voz" nacional. Independente do tema ou influências estéticas, o trabalho de um artista sempre - isso é inevitável - será completamente encharcado de qualidades e defeitos inerentes ao seu país de origem.
À medida em que as grandes cidades passam por mais e mais períodos de decadência, vários dos tropos estéticos e literários dos modernistas e pós-modernistas (entre os diversos pós, os concretistas) são repensados, remixados e reorganizados em novas posições no escaninho das importâncias. A relevância de nomes como Tolkien, Dead Can Dance e outros artistas de diversos tons e origens que resgatam uma estética pré-moderna, mostra que os dados ainda estão rodando. Dados que jamais cairão de vez, mas que com o passar das décadas e séculos vão reposicionando, como na dança randômica de Kali, os artistas e escolas em seus novos patamares.
Posted on August 20, 2013 and filed under Literature.

RIP Elmore Leonard

Elmore Leonard, apesar do "more" no pré-nome, sempre se agarrava à ideia de que menos é mais. Avesso a descrições, compensou esta assumida deficiência tornando-se um verdadeiro mestre dos diálogos. São dele as melhores tiradas daquele que é, pessoalmente e de longe, o melhor filme de Tarantino: Jackie Brown. Também são dele as infames e deliciosas frases de personagens (tá, é um clichê, mas aqui o adjetivo vale) inesquecíveis como o Boyd Crowder do conto "Fire in the Hole", que mais tarde foi estendido e adaptado para uma série de TV, a bem-sucedida (e ótima) Justified
Ainda que tenha influenciado um número incontável de autores e roteiristas, foi apenas há pouco tempo que a força de Leonard tornou-se reconhecida, após ter ganho o National Book Award, em 2012. Um dos mais importantes autores das últimas décadas, ele nos deixa aos 87 anos. Mas fica um belo rol de histórias e, mais importante, uma renovação do senso de imediatismo, traduzido perversamente por alguns dos melhores diálogos escritos nas últimas décadas. Leonard, mestre da objetividade, cuja importância teve que ser explicada pelo cinema e pela TV até que os literatos se dessem conta da obviedade de seu talento, deixa em sua partida um estranho mas calmo vazio. Como o sumiço de uma testemunha importante, mas que conseguiu plantar provas antes de desaparecer. 
Posted on August 20, 2013 and filed under Literature.

Mudança

Pessoal, a parte "blog" deste site passará para o Tumblr, em http://hypervoid.tumblr.com/. Com as redes sociais, cada vez menos leitores direcionam seus browsers para os blogs pessoais. A exceção é o Tumblr, que é mais social e participativo por natureza. Por favor, continuem acompanhando o Hypervoid (que faz 11 anos de existência em 2013) em seu novo endereço. Continuarei postando sobre o que acho mais interessante em cultura pop, magick, subversão, ciência maluca e outras coisas por lá. O que já saiu no Hypervoid até agora continuará aqui neste endereço, como uma espécie de arquivo. Mas o blog desta página passará a falar só de coisas pessoais e de meu trabalho como escritor, editor e tradutor. 

Isto porque este site, que continuará a existir e ser plenamente atualizado, passará a ser meu site profissional (pessoal?), onde concentrarei minha plataforma literária online. Posts sobre meus textos, contos online, links para livros e histórias à venda, além de material sobre meus trabalhos de sound art e música eletrônica. 

A revista Hyperpulp também continua normalmente, em seu site próprio

Esta mudança acontece porque a web se tornou mais fragmentada e ao mesmo mais monopolizada (paradoxo virtual) do que nos anos 90 e 00, graças ao Facebook e outros mega-sites sociais aglomeradores, que desestimulam a visita e o surf livre. Acho melhor granular a produção, focalizando cada canto em um determinado aspecto profissional e pessoal, ao invés de juntar todos os ovos aqui neste endereço.

Posted on August 10, 2013 .