As Horas de Tolentino

No dia em que Leonard se vai, por acaso leio um artigo sobre a morte de Bruno Tolentino, em 2007, aos 66 anos. Tive a chance de entrevistar este poeta em 1993, quando esteve de volta ao Brasil para o lançamento de seu As Horas de Katharina. De origem aristocrática, teve seu espaço no Brasil diminuído em prol de suas polêmicas. Pregava uma nítida diferença de qualidade e relevância entre a alta cultura erudita e a cultura popular e ganhou desafetos importantes ao esculhambar a música popular brasileira e os poetas concretistas dos anos 50 (principalmente o trabalho destes como tradutores). Pupilo de W.H. Auden, professor em Oxford, Tolentino impôs-se um auto-exílio por Inglaterra, França e Itália e dizia-se um “exilado artístico”. Na Inglaterra, passou dois anos preso por engano, em um erro policial que mais tarde fez com que ganhasse o perdão da Coroa inglesa. Dois anos que passou ensinando os presos analfabetos não apenas a ler, mas a criar gosto pela leitura de ficção e de poesia.
Como pude comprovar na entrevista, nem as raízes aristocráticas e tampouco o apreço pelo rígido formalismo estético o tornavam uma pessoa arrogante. Eu tinha 23 anos na época e lembro de ter ficado surpreendido com a humildade e educação de Tolentino, ao passo em que, como pude comprovar várias vezes como jornalista, diversos nomes maiores ou menores da cultura mais popular demonstraram uma rude egolatria.
A alienação de Tolentino para com aquilo que chamava de “extrema brasilidade exagerada” da literatura nacional possui um certo paralelo com as críticas de Borges ao cenário literário argentino. No fim das contas, cultura é universal e, acredito, é de todo desnecessário buscar uma “voz” nacional. Independente do tema ou influências estéticas, o trabalho de um artista sempre – isso é inevitável – será completamente encharcado de qualidades e defeitos inerentes ao seu país de origem.

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À medida em que as grandes cidades passam por mais e mais períodos de decadência, vários dos tropos estéticos e literários dos modernistas e pós-modernistas (entre os diversos pós, os concretistas) são repensados, remixados e reorganizados em novas posições no escaninho das importâncias. A relevância de nomes como Tolkien, Dead Can Dance e outros artistas de diversos tons e origens que resgatam uma estética pré-moderna, mostra que os dados ainda estão rodando. Dados que jamais cairão de vez, mas que com o passar das décadas e séculos vão reposicionando, como na dança randômica de Kali, os artistas e escolas em seus novos patamares.
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Alex Mandarino

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