Rio e Buenos Aires: Cidades Opostas

pag00026
A minha primeira visita a Buenos Aires, em 2007, foi um choque cultural: pela primeira vez percebi que as mazelas do Brasil não eram apenas decorrentes de nosso aspecto de país “em desenvolvimento” (como um embrião mal quisto), mas culturais. Foi um choque ver que pobreza econômica não justifica pobreza cultural. Ao sair do aeroporto de Ezeiza, na primeira avenida larga que nos recebe, já vi condomínios e projetos habitacionais de classe baixa extremamente bem-cuidados. Vasos de flores nas sacadas, pinturas novas, tudo limpo, ainda que indisfarçavelmente lugar de gente mais sem grana. Diferença cultural enorme: lá o pobre tem noção de que sua pobreza não deve ser sinônimo de derrota, de que a vida ainda tem jeito. De que a falta de recursos hoje não se traduz necessariamente em morte amanhã.

Não sei se é o nosso imenso déficit educacional, as escolas e currículos sucateados por mais de duas décadas de trogloditismo verde-oliva ou se o problema é lá atrás, com nossa colonização predatória que enxergava toda essa terra como mera fonte de minério e produtos vegetais. Mas é espantoso como o Rio (para pegar como exemplo a cidade em que nasci e onde vivo) e Buenos Aires são, não apenas diferentes, mas opostas. Vamos à listinha, lembrando que é claro que existem as famosas exceções que confirmam as tais regras e que, sim, claro que é quase tudo generalização:

1) Em Buenos Aires o espaço urbano é perfeito para pedestres. A cidade estimula a caminhada, a deriva, se deixa ser apreendida pelos pés e olhares. As pessoas são educadas e dizem ainda palavras mágicas em extinção por aqui, como “com licença”, “por favor” e “perdão”. No Rio, principalmente no inominável Centro, pedestres se acotovelam, atropelam, se esbarram como zumbis de Walking Dead. O outro é intangível, inexistente.

2) As calçadas de Buenos Aires estão livres para a caminhada. No Rio, por algum motivo pensam que é normal estacionar carros sobre as calçadas. Não me lembro disso nem em outras cidades do Brasil. Calçadas deveriam ser para pedestres. Lugar de carro é nas ruas. Ou, melhor ainda, nas garagens e ferros-velhos.

3) Ainda as calçadas: em BA, são lisas, planas, espantosamente retas. No Rio, as pedras portuguesas são sempre esburacadas, tortas, cheias de poças de esgoto e água da chuva. Colocadas de maneira torta, míope, por pedreiros Mr. Magoo. Detalhe: em Portugal são lisíssimas e retas, então é culpa inteiramente de nossa falta de habilidade local.

4) A cidade é repleta de bancos, superfícies para os pedestres, praças aprazíveis, parques enormes, lagos e muito verde. Dá prazer andar nela. No Rio, os lugares são áridos. Nem os pontos de ônibus têm bancos, mas plataformas propositalmente tortas para evitar o sono dos mendigos. Locais que poderiam ser amigáveis ao cidadão, como a Praça XV e a recém-reformada Praça Tiradentes, são arenas inóspitas de cimento, sem árvores e sem bancos. Ai de quem tentar parar e se sentar nesta cidade.

5) No comércio de Buenos Aires os atendentes, garçons, caixas, todos são muito atenciosos e gentis. A educação é espantosa. No Rio, reina a arrogância que só o cruzamento da burrice com a baixa auto-estima pode gerar. Os comerciantes têm certeza absoluta de que estão prestando um favor e o cliente que se dane e vá embora.

6) Livrarias. Buenos Aires está cheia delas. A cada quarteirão se esbarra com pelo menos uma livraria. Caras, baratas, chiques, mais simples, de best-sellers, de livros de arte, sebos charmosos de ruas escondidas do centro. É impressionante como se lê (e bem) por ali. No Rio, a maioria dos bairros não têm sequer uma livraria para literalmente contar a história. E boa parte delas é cara, voltada para coisas como A Cabana e Crepúsculo, com (vide item 5) atendentes arrogantes e donos de reis em suas barrigas, principalmente na Livraria da Travessa. Mal temos livrarias por aqui, mas todo quarteirão tem uma academia de musculação, dez botecos e 40 farmácias.

ba06costarica
7) A cidade prima por seus cafés. Charmosos, um em cada esquina, mesmo em bairros mais pobres. É fácil para o pedestre (ele de novo, esse paradigma da civilização) encontrar um ponto para descansar, beber um mochaccino e comer uma medialuna. Ou uma boa cerveja, uma boa comida. Relaxar, ler uma das revistas disponíveis, usar o wi-fi para navegar em seu tablet ou notebook. No Rio, contenta-se com pouco. O aguado chopp da Brahma “mermo”, aí, naquele camelô ali da esquina do lado da poça de esgotinho da Cedae. Confunde-se ser “desencanado” com pouca ambição, “falta de frescura” com pobreza de espírito.

8) Em BA há espaço para as diversas vertentes do rock. Da música eletrônica. De coisas mais alternativas. Ramones (mitos por lá), Nouvelle Vague, minimal techno, vanguardas estranhas. Há espaço nos ótimos teatros e clubs da cidade e ninguém perde seu precioso tempo olhando enviesado para o cabelo ou piercing sei lá de quem. No Rio, temos atualmente essa juventude que já nasceu velha, que tece loas a qualquer coisa desde que avalizada pelos seus pais e avós. É o eterno samba de raiz, a onipresente MPB chata. Imutável. Careta. O que nos leva ao item 9.

9) O tango foi modernizado. Retraduzido para o século XXI por jovens que entendem que a tradição não se sustenta se for congelada em âmbar e por coroas que não saem correndo aos gritos de “isso não é música” aos primeiros sons de um breakbeat ou uma guitarra com fuzz. No Rio, o samba é o mesmo de cem anos atrás. O principal bairro boêmio da cidade, a Lapa, foi cooptado e higienizado, virando point oficial da Prefeitura.

10) Em BA os motoristas param nas faixas de pedestres. No Rio, os carros aceleram quando você aparece na frente deles. Motoristas descem e atacam pedestres na faixa com golpes de pés-de-cabra.

11) O portenho tem extremo prazer em frequentar teatros, cinemas, galerias, restaurantes, shows, cafés. Exercem o direito que todo ser humano deveria ter de usufruir de séculos e séculos de civilização humana. No Rio, cariocas desprezam a civilização, que é “coisa de boiola”. Um punkismo playboy totalmente errôneo e distorcido faz com que o carioca faça sempre a mesma coisa: ir à praia e depois a alguma boate cheia de lutadores de jiu-jitsu.

12) Em BA as pessoas nas ruas estão sempre lendo. Livros e notebooks (com arquivos de texto abertos) são onipresentes. Nos cafés há uma fartura de revistas, jornais e mesmo livros. No Rio, como bem notou um gringo amigo meu, as pessoas quando estão sozinhas nos bares estão paradas com o olhar perdido para o nada. Estão sentadas sem fazer nada, fitando o limbo. Só falta babar.

13) É possível andar dias por Buenos Aires sem ver uma pessoa usando um celular. No Rio ainda há esse fetiche por esse gadget tão simplório. Usam celular 24 horas por dia. Na calçada, esbarrando nos outros enquanto digitam “kero ve vc hoji d noiti” no Twitter. O celular nos fascina, como os espelhos faziam com os índios.

14) BA tem inúmeros e excelentes museus. Ótimos acervos; é comum visitar galerias. No Rio, só ficam lotadas as mostras-“evento”. O Monet anunciado pela Globo, a exibição de objetos egípcios que “deu no Jornal Nacional”.

15) Por lá preservam lugares como o sensacional Ateneo, a maior livraria da América Latina. Há essa ótima mistura de tradição bem cuidada e modernidade maluca. Por aqui tudo é tombado pelo Iphan de forma congelante, imobilizante. Basta o Iphan tombar alguma coisa para que a gente saiba que aquilo vai literalmente tombar um dia. Ou não prservam nada ou preservam e transformam em coisa intransponível, de elite.

16) Como disse lá no início, em BA os pobres se cuidam. Mantêm seus conjuntos habitacionais limpos, decorados, bem cuidados. Por aqui o clima de derrota prevalece. Como “não tem jeito mesmo”, entregam para essa figura complexa, Deus, e engatam em um protesto de não-ação que segue ladeira abaixo, cada vez mais suicida. É um abandono voluntário, um hara-kiri social e cultural. O eterno clima de “qualquer coisa tá bom”.

ID68_buenos-aires-fantastico-4919f72d67b3e
17) BA mantém seu verde. Muitos bairros cheios de árvores, muitos parques e praças. Em lugares como o Jardín Botánico, gatos de rua são adorados, cuidados, medicados, têm ali um santuário.No Rio, o verde se concentra em guetos, como a Floresta da Tijuca. Os bairros em si, com raras exceções como a Gávea, o Grajaú, o Bairro Peixoto e outros, são áridos e de calçadas abandonadas. As árvores são cortadas por motivos esdrúxulos. O carioca acha que as árvores “sujam tudo” com suas folhas. Lugares como o Campo de Santana são deixados à mercê dos marginais e crackheads. Gatos são envenenados  às centenas, detestados, vistos como o demônio por evangélicos com a cabeça na Baixa Idade Média.

18) Buenos Aires tem há muitas décadas uma cena fortíssima de quadrinhos. Carlos Trillo, Alberto Breccia, Enrique Breccia. O Rio (e o Brasil) tem ótimos momentos no humor. E para aí. Só conseguimos rir.

19) Portenhos saem para dançar. Saem de casa às sete da noite, param em um café, privilegiam horas de boa conversa, para enfim tomarem as boates e clubs lá pelas três da manhã e dançarem até o dia avançado. O carioca fica parado, sentado como uma morsa bebendo durante horas.

20) BA tem um clima de arte e criação: a cidade é cheia de livros, stencils, bons grafites, instalações, museus, parques utilizados para skate, parkour, atividades legais. No Rio o Aterro do Flamengo é point de adeptos da vida comunal GTA style, as praias não se prestam a nada além de paquera e exibição de bíceps e bundas (sem falar na ridícula onda atual das mulheres com coxa de betoneira).

21) O portenho tem uma ótima percepção da importância da cultura. Da cultura como um todo, de Sex Pistols a Dvorák, da witch house ao techno tango, de Jenny Holzer a Manet. Cultivam coisas. No Rio, a conversa fiada de boteco, laje ou esquininha com esgoto é de que cultura é elitista e viadagem.

22) Em BA existe o prazer pela conversa. O diálogo, essa arte perdida (afinal, é necessário saber ouvir), tem seu lugar. O carioca gosta de impressionar, não de dialogar. Berra como animais em restaurantes lotados onde nada pode ser ouvido.

23) O portenho, homem e mulher, sabe se vestir ou ao menos têm noção da importância civilizatória e subversiva de tentar fazer isso. Seja pelas vias do dandismo tardio ou da punkice pós-whatever, ele está tentando e muitas e muitas vezes acertando. Pro carioca, qualquer coisa tá boa. O Centro é tomado por idiotas de camisa azul listrada e terno, indistinguíveis em sua arrogância e grosseria. A zona sul é tomada por eunucos falsos bons-moços de camisa de vovô, barba e havaianas, na melhor linha “faço gênero de que não faço gênero algum”, nos moldes de pragas como os Los Hermanos. Haja moleton jogado sobre os ombros.

24) O portenho fica indignado. Reclama quando necessário. Vai às ruas. Exige seus direitos. O carioca, que já foi assim, hoje é um cordeiro evangélico que acha tudo isso “feio”. Quem reclama por aqui é mal visto, é “chato”.

25) Por lá os ditadores foram e ainda estão sendo todos julgados e condenados. Por aqui, demos anistia para todos os torturadores e assassinos.

OK, pensei e pensei e o Rio tem duas coisas muito melhores que Buenos Aires:

1) Por aqui temos a praia. Praias sensacionais. BA tem Puerto Madero, onde a água é só figuração.

2) Temos a cultura negra. Temos batuque, a antiga malandragem. Temos ritmo. Em BA, a música tem melodia mas o ritmo é sempre europeu.

Buenos Aires 25 X 2 Rio. Acho que dá pra melhorar.

22_MVG_tijuca_mauriciotancredi3
Pedras portuguesas em rua da Tijuca.

Posted in Bronca.

Alex Mandarino

2 Comments

  1. grande Jarém!! saudades, sua coisa! buenos aires é foda e tudo o q vc fala é sempre foda mas…fazer questão de escrever isso e desse jeito num post gigante… cuidado pra não virar o ivan lessa!
    =P
    kisses

    ps. faltou colocar no "quem sou eu": inventor do mussum forévis!

  2. Fala, Angelo!

    Quando é divertido o texto flui e aí quando eu vejo tá enorme (epa). Bem que eu queria virar o Ivan Lessa, morar em Londres e ser pago para escrever minhas escleroses nonsense. Trabalho perfeito.

    Eu devia ter registrado essa parada do Mussum. Agora tem gente como as que eu descrevo no item 23 fazendo camisas dessa tralha.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *