Separações

snow
Imagem de Stefan Morrell

 

Os corredores de concreto armado pareciam se entrelaçar ao infinito. Horas e horas se passaram e sempre havia algo novo a ser explorado: um canto ainda não visto, uma reentrância decorada de maneira estranha, salões enfeitados na penumbra. Subi os vários lances de escadas, olhando por cada nova janela ou sacada. Nessas ocasiões, o horizonte branco se espraiava por quilômetros sem fim, às vezes parecendo ir além do próprio Sol. Os sons dos meus passos ecoavam pelas paredes e, com o passar das horas, aprendi a conversar com eles.

Tentei ligar e usar todos os instrumentos e aparelhos que encontrei. Sem resultado. Nunca recebi resposta e nem mesmo vislumbrei sinais de que ainda havia mais alguém. Mas tinha de haver. Claro. Vi reprises de velhos filmes, telejornais, videoclips. Velhos desfiles de moda pontuavam as décadas passadas, que agora se impunham cronologicamente apenas por adivinhação.

Sei que ainda há muito a descobrir por aqui. A organização de vários dos cômodos parece desafiar abertamente a lógica das plantas da estrutura, que achei por acaso em um velho arquivo. Prefiro pensar que o papel esteja errado, não o concreto. Mas mudei de idéia quando percebi que os erros nunca eram os mesmos. Na manhã seguinte, o corredor da noite de ontem apontava para salas que eu só veria amanhã.

Continuei caminhando, observando, testando. Esperando que de alguma forma eu consiga compreender esta estrutura, pisar em cada uma de suas salas, vislumbrar cada uma de suas janelas e mirantes. Quanto mais conheço, mais percebo que a extensão total é ainda maior do que imaginei naquele dia em que acordei aqui e liguei as luzes do complexo. Naquele dia, há 45 anos.

 

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Alex Mandarino