Colocando o “punk” em “steampunk”

steam
Fish, by Adam Tredowski

Uma coisa sempre me incomodou no termo steampunk e em todos os demais coloque-sua-fonte-de-energia-aqui-punk que se seguiram: o termo “punk”, nestes casos, é usado de forma quase inversa à de seu uso em “cyberpunk”. Explico – e para isso voltamos aos anos 80. Aquela época onde a maquiagem de Robert Smith e os teclados de Daryl Hall e John Oates ainda eram excludentes, quando os diferentes mundos oitentistas ainda não haviam sido reabilitados por figuras como o sensacional Chromeo. Onde o Atari 2600 consolidava o seu reinado de 8 bits e quadrinistas como Frank Miller e Bill Sienkiewicz estavam ainda em seus primeiros e mais importantes passos. É nesse cenário que um canadense chamado William Gibson superou todas as suas dificuldades tecnológicas oriundas do fato de sequer possuir um computador, mixou beatniks e termos de fanzines phone phreaks e o resto é história. Mas atenção: foi o termo “punk” que foi acrescentado ao termo “cyber”, não o contrário. E isso faz toda a diferença.

Em 1984, ano em que foi lançado Neuromancer, estava em pleno andamento o ciclo Punk’s Not Dead, capitaneado por bandas do hardcore e do punk tardio como Exploited e G.B.H. Se o punk original surgiu em 1975 e foi claramente morto em 1979 com o fim de Sid Vicious e o surgimento do PiL, houve quem tentasse manter acesa a pólvora inicial, esquecendo que niilismo não pode ser reativado com otimismo (o que foi comprovado décadas depois pelo surgimento do pop punk brega de Green Day e, sim, Bad Religion – não adianta tacar água na fogueira para que ela queime mais).

Foi nesse rolo todo que surgiu a literatura de FC cyber, capitaneada por William Gibson, Neal Stephenson, John Shirley, Richard Kadrey, Bruce Sterling e alguns poucos outros. No campo da não-ficção, os cabos foram ligados por figuras como R.U. Serious e fanzines como Mondo 2000 e o bOING bOING original. Coisas que ainda demorariam anos para chegar ao mainstream (o grunge, por exemplo, que surgiu anos depois, foi cooptado bem antes). Ao perceber que aquele tipo de literatura de ficção científica diferia em forma e função de figuras como Clarke, Asimov e Bradbury, alguns críticos (há controvérias quanto à origem do batismo) apelidaram aquele grupo de cyberpunks. O punk, aí, vinha do fato de sua literatura ser subversiva, marcada por experimentações formais e temas hi e lo tech. Ou seja, o cyber já existia; como nesse caso era ousado, novo e marginal, era um cyber meio punk. Logo, cyberpunk.

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Capa do zine de phone phreaks 2600 (1987)

Na esteira disso tudo, anos depois, Gibson e Sterling se uniram para escrever The Difference Engine, livro a quatro mãos humanas e duas ciborgues que foi o primeiro a merecer a alcunha de steampunk. É aí que a porca nomenclatural torce o til.

The Difference Engine é sensacional, exercício pirante em cima da máquina analítica de Charles Babbage, pai do hardware da mesma forma que Ada Lovelace Byron é a mãe do software. Mostrando o pioneirismo do mundo cyber, Gibson e Sterling puxaram a ampulheta de silício lá pra trás, para o século XIX. Claro, a época onde o vapor corria forte (em mais de um sentido, vejam as casas de ópio). O exemplo não tardou a ser seguido. Nos quadrinhos, Grant Morrison e Steve Yeowell imaginaram um Oscar Wilde proto-cyber-dândi em Sebastian O. Mas a questão é que a preguiça em batizar este novo sub-gênero gerou uma sucessão de rótulos-pastiche dos quais se tornou difícil escapar.

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Cena de Machinarium, ótimo game steampunk

A transposição do cenário cibernético hacker para uma era vitoriana industrial e pioneira foi entendida pelos imitadores de forma literal. Gibson e Sterling não apenas mudaram o cenário da era da informação (que quer ser livre, sim?) para um dos inícios da revolução industrial, mas antes levaram com eles todo o seu arcabouço idiomático subversivo e a temática inovadora. Infelizmente, isso se perdeu na apreensão do trabalho e obras menores que se seguiriam imitariam apenas o background vitoriano. Sinto muito, mas não é e nunca foi apenas uma questão de trocar os óculos escuros proto-Matrix pelos goggles de bronze dos steamers. A correlação não é direta. É impossibilitada por vários fatores estéticos, históricos, políticos e literários, como Charles Stross já colocou de forma bem melhor em sua quasi-espinafração do steampunk.

Ao exercer a mera troca do termo “cyber” pelo termo “steam”, seja lá quem for que criou o termo steampunk cometeu duas gafes histórias e estéticas que pessoalmente acho insuportáveis. Primeira: estipulou, subconscientemente, que basta colocar na frente um prefixo energético para que um novo sub-genero surja. Não deu outra: ao steampunk se seguiram dieselpunk, mythpunk, fablepunk, elfpunk e outros menos votados, que nada mais são do que textos de gêneros tradicionais da FC&F com uma nova roupagem estritamente mercadológica. Segunda: fez do termo “punk” eterno prisioneiro dos sonhos impossíveis de nerds nem um pouco subversivos – muito pelo contrário, até: são justamente estes estratos da FC que mais apresentam autores francamente saudosistas, conservadores e autoritários. Em resumo, o termo gerou o pior de dois mundos; anulou a relevância de uma palavra que já constava do imaginário pop e fez isso colando-a com um superbonder palavrístico a termos que nada significam.

Acho que é inevitável que alguns autores se sintam ofendidos pelo que estou falando – e não é essa a idéia. Mas, bem, é inevitável que quem viveu o punk original, como eu, fique irritado por ver (mais) um termo ser desfigurado em prol da rotulação fácil e preguiçosa. Autores como Cherie Priest (e até Alan Moore, acrescentado ao balaio steampunk por sua Liga de Cavalheiros Extraordinários) são sensacionais e criaram obras-primas. Talvez no fim seja isso o que importa, claro. E só nos resta lamentar o aspecto antropofágico às avessas, a ação pop will eat it itself literal, de como nomes entram e saem de seus significados. Se é pra ostentar o sufixo “punk”, que seja como em Gibson, Sterling, Priest e Moore e tantos outros: com relevância e com raiva. Não como mero cosplay literário, mera Etsy de bronze.

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Vivienne Westwood e Malcolm McLaren, a Ada e o Babbage do punk

Posted in Literatura.

Alex Mandarino

5 Comments

  1. Belo post, Manda.

    Sempre achei estranha essa nomenclatura mesmo. Gosto do gênero e tal, mas parece que algo se perdeu em algum momento e a palavra acabou simplesmente mudando de sentido. Até pensei uma vez em fazer um conto com punks na era vitoriana pra justificar o nome do gênero, hahah. Quem sabe eles ouvissem uma banda chamada INTERCOURSE REVOLVERS. Mas alguém já deve ter feito algo do tipo… enfim.

  2. Conheço autores nacionais de steampunk, respeito o trabalho deles, mas a mim sempre incomodou também o "punk" como sufixo genérico. Domesticaram o punk, e isso é ruim. Por outro lado, sinto que, aos poucos, o espírito do movimento punk está voltando – mas não espere encontrá-lo no cada vez mais adocicado e bunda-mole mainstream

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