Viva a Dérive

 

Desde os primórdios da história humana somos treinados para interagir com o ambiente ao nosso redor utilizando todos os sentidos de que dispomos. Acostumados a esquadrinhar o horizonte em busca de caça e predadores, homens até hoje tendem a olhar de forma mais horizontal, enquanto mulheres tendem a observar o mundo de forma verticalizada, o que é uma herança dos tempos primordiais em que colhiam frutas e ervas dos galhos das árvores. Homens tendem a olhar para a terra, enquanto mulheres mantêm relação especial com o céu, ainda que não se saiba se estes aspectos sejam causa ou consequência das diferenças citadas anteriormente. O que importa é que a imersão no que nos cerca é condição essencial para a nossa vida. E isso está mudando.

Carros, celulares, computadores, tablets e outros aparelhos se tornam cada vez mais “conscientes” de sua localização e, em enorme ironia, perdemos nosso poder geo-dedutivo em igual proporção. Conheço professores que reclamam que adolescentes e crianças atuais têm menor capacidade de aprendizado, em boa medida por confiarem sua memória ao Google. “Para quê aprender História se a qualquer momento podemos conferir as datas e nomes no Google?”, disse uma aluna do conhecido de um conhecido, que é professor na Suécia. Assim como a existência de um oráculo-memória RAM-caverna de Platão externo ao nosso cérebro pode provocar mudanças para pior em nossa capacidade cognitiva, inúmeras formas de acompanhamento geográfico e GPS perigam nos separar de nosso senso espacial mais primitivo.

Em nossa apreensão do mundo, mais importante do que o que vemos é como fazemos para ver. Isso fica evidente quando vamos pela primeira vez a um novo bairro. Se levados por um amigo, aprendemos muito menos do caminho do que se tivéssemos ido sozinhos (aliás, isso vale para várias coisas, literais ou alegóricas). Andar pela cidade, se permitir penetrar no reino da dérive, é mais importante do que chegar. Quando tentamos desvendar a jornada usando nossos sentidos, nosso cérebro processa, apreende e cataloga detalhes dos quais muitas vezes temos apenas uma leve noção ou só foram percebidos no plano do inconsciente. Estabelecemos relações, atalhos físicos e mentais se entrecruzam, palavras e formas se encaixam e reinventam a si mesmas, em uma divertida e essencial sinestesia geomântica.  Tudo se perde quando usamos o GPS. O destino então se torna certo (aliás, triste viver em épocas que necessitam de tantas certezas), mas a viagem é reduzida a linhas azuis e laranjas, a uma mera interface gráfica planejada para os olhos e a penumbra, não para a mente.

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Traverse Me, desenho feito a pé com GPS por Jeremy Wood

Pensadores como Nicholas Carr e Alain de Botton estabelecem os parâmetros iniciais nesta nova etapa da crítica do conhecimento humano. O GPS e outras técnicas de posicionamento estão para a busca do caminho físico da mesma forma que o Google está para a busca do conhecimento. Ajudam – é óbvio – mas não devem jamais ser a ferramenta principal. Quando estas ferramentas substituírem nossa capacidade espacial e cognitiva, o mundo distópico de Logan’s Run estará logo ali na esquina.

Até mesmo para mundos dentro de mundos isso vale: este excelente artigo no site de games Kotaku mostra que a mesma diferença acontece na Liberty City da série GTA. Usando Grand Theft Auto 4 como exemplo, o articulista Kirk Hamilton expõe as distinções de absorção da informação urbana que ficam evidentes dependendo do modo como a pessoa joga: da maneira normal ou com o mini-mapa (espécie de GPS interno do game) desabilitado e invisível. Não deu outra: sem o mini-mapa, somos obrigados a aprender Liberty City, a desvendar os mistérios e desafinos de sua paisagem, conversar com esquinas e becos, escutar a fala de sinais de trânsito e fachadas, nos submeter à mágica das cores e grafites, ouvir as vozes do supremo xamanismo urbano. Usando o mini-mapa, aprendemos mais rapidamente aonde fica cada coisa, mas isso vem ao custo de perdermos a experiência do aprendizado. É sintomático que tempos imediatistas como os nossos exijam um aprendizado em pó, instantâneo, uma vivência fast-food.


Liberty City, em GTA 4

É sempre interessante e recompensador retornar ao conceito essencial da viagem; empreender jornadas múltiplas: a pé, na cidade real; em sua mente, onde quer que você vá através dela; via joystick-carro-pés na cidade de pixels e polígonos que é Liberty City (e tantas outras). Curioso que uma cidade imersível, criada via programação, meca do worldbuilding, nos proporcione a noção exata do que estamos perdendo quando somos privados da formidável qualidade de forjarmos nossos próprios mapas, com seus erros e acertos.

 

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Alex Mandarino

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