Rei Rato: Traduzindo China Miéville

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A editora paulista Tarja está publicando por aqui o que constitui a estréia no Brasil de um dos autores mais importantes da atualidade: o inglês China Miéville. Desnecessário explicar aqui a importância do cara, basta dar uma olhada na página dele na Wikipedia. Ouvi falar do China pela primeira vez através do Octavio Aragão, que na época havia adorado Perdido Street Station. Rei Rato, romance de estréia de Miéville, de 1998, não chega ao brilhantismo de Perdido, mas também não se propõe a isso. Se propõe a ser uma mistura diabólica de horror e pulp, fantasia e quadrinho da Vertigo, fabulismo e Frank Miller, romance policial noir e mergulho pelas noites regadas a jungle (é 1998, afinal). E nessas o livro se dá muito bem.

Falo mais sobre o livro, o autor e sobre o processo de tradução na Apresentação que escrevi para a edição (e que pode ser lida online, junto com os dois primeiros capítulos, no site da Tarja – onde você também pode comprar a sua edição, aliás; hoje em dia livros são como órfãos, precisam da sua ajuda). Mas cabe ressaltar aqui a maravilha – trabalhosa – que foi realizar essa tradução. A boa tradução é aquela que sai do caminho e deixa a pessoa curtir o livro, quase como se ele não houvesse sido traduzido. Foi o que tentei fazer; detesto quando arestas de traduções apressadas me fazem dar uma topada durante a leitura. Nada tira tanto a capacidade de imersão e o sense of wonder proporcionados por uma história do que uma literalidade absurda; talvez só a folga pseudo-criativa faça isso. Traduzir é tentar entrar na cabeça do autor original por algum tempo, manter sempre presente a noção de que o livro se passa em outro lugar, época e cidade, e que tudo o que isso acarreta deve ser compreendido e apreendido sem muitos malabarismos editoriais.

Me esforcei para que isso acontecesse com o Rei Rato. Em parte por ser minha primeira tradução de um romance e quis começar com o pé direito; mas também por ser um livro do China Miéville, autor que admiro e até chega a me influenciar quando escrevo minhas coisas. E foi custoso: além do jargão da cena jungle londrina dos anos 90, com todos os seus termos e sub-gêneros do drum’n’bass, expressões do hip hop e do grafite, temos um personagem fantástico que fala com sotaque jamaicano, um outro que se expressa em frases cockney (muitas vezes em inglês quase medieval ou ao menos elisabetano) e os próprios maneirismos estilísticos de Miéville. Aqui ele não pira tanto com a linguagem quanto em Perdido Street Station, que já estou traduzindo. Mas, mesmo em um livro de estréia e com todos os inevitáveis senões que isso sempre traz, é o Miéville.

Rei Rato é leitura certa para quem se interessa por música eletrônica underground, por Londres, por fantasia e fabulismos subvertidos, por quadrinhos de figuras como Moore, Miller e Gaiman, por romance policial e por horror urbano ao estilo de Clive Barker. E, mais importante, para quem se interessa por literatura, pura e simples. Assim como fazem Jeff VanderMeer, Mark Charan Newton, Kelly Link, Hal Duncan e diversos escritores fantasistas contemporâneos associados ao gênero New Weird (como todo rótulo, perfeito e limitador), Miéville demonstra preocupações formais, estéticas e rítmicas dignas da boa literatura.

A edição brasileira está ótima, cortesia do editor Richard Diegues, que também fez excelente trabalho na diagramação interna (e de Mila Fernandes, que fez ótima revisão do texto traduzido). O lançamento em São Paulo já aconteceu, mas há sempre oportunidades para falar sobre o livro. Neste sábado, na Casa da Matriz, acontece o lançamento do livro no Rio, dentro da festa Paradiso, dos DJs Tito e Edinho, que prometem tocar meia-hora de jungle e breakbeats para tocar o terror weird. Um exemplar do livro será sorteado entre os que estiverem na festa. E, no final de agosto, dentro do evento Fantasticon, em São Paulo, provavelmente estarei participando de uma sessão de autógrafos ou mesa redonda dedicada ao livro. Levantem o bueiro, respirem fundo e mergulhem: apareçam.

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China Miéville “Ficção para o novo século.” – Neil Gaiman

“A prosa de Miéville mescla a violência niilista de James Herbert com a paranóia metropolitana do Martin Amis de Campos de Londres e demonstra talento para o diálogo verossímil e ambientações cinematográficas. Mais impressionante, talvez, seja a topografia meticulosamente trabalhada de uma Londres povoada por jovens desesperados e bizarras criaturas da noite e tomada pelo ritmo do drum‘n’bass.” – The Times (Londres)

Rei Rato desce tão doce quanto o lixo de semanas; deixa o leitor olhando, pensativo, para as tampas de bueiro do Soho e de Battersea. Uma leitura bem-amarrada, suculenta, instigante.” – M. John Harrison

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Alex Mandarino