Miudezas

miudezas

O aquecedor sussurra tons graves à minha direita, enquanto a esquerda se ocupa com a porta. Ela entrará? Depois de ontem, espero que sim. Os livros, retratos, canetas, objetos, tudo aponta para realidades que desconheço, para a infinitude que bóia e transborda do interior de todas as coisas pequenas; todas as possibilidades que só se permitem conhecer quando trilhadas. A luz que vem da janela derrama ultravioleta sobre as minhas costas. Ou será neon?

Dúvida que só o relógio pode responder, mas está parado. Parado em doze possibilidades, todas cortadas ao meio por conjuntos raiados ao quase infinito. Minha mão alcança um livro a esmo na estante à minha frente e, logo na página 5, na 23ª linha, lá está a resposta: a memória me dá um soco. Não, espero que ela não venha. Não depois de ontem. Meu olhar se perde no papel de parede verde ainda mais esverdeado pelo tempo e vaga até o outro lado.

Não.

 

Imagem: CGI criada por Juan Siquier.

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Alex Mandarino