Carlos Trillo e o horizonte de nanquim

Morreu nesse dia 8 de maio, durante férias em Londres, um dos maiores gênios da História (com H maiúsculo) dos quadrinhos: o argentino Carlos Trillo. Escritor do mesmo porte de um Alan Moore ou Will Eisner, Trillo deixa para trás um legado de contos e personagens fantásticos, em mais de um sentido. Meu favorito – aliás, um dos meus cinco quadrinhos mais queridos – é Alvar Mayor, brilhante e essencial história que mostra as desventuras de um mercenário espanhol e seu amigo indígena na época da América colonial. Nunca o século XVI foi tão atemporal e abrangente. E não são todos os séculos?

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Nascido em 1º de maio de 1943, em Buenos Aires, Trillo começou sua longa e prolífica carreira de escritor aos 20 anos. Colaborou com gênios do nanquim como Jordi Bernet (Clara de Noche), Horacio Altuna (no clássico El Loco Chavez e em Merdichesky), Eduardo Risso e Mandrafina, além de Alberto Breccia. Mas seu trabalho em Alvar Mayor, ao lado de Enrique Breccia (filho do mestre Alberto) é para mim o mais completo, belo e genial. Provavelmente por ter sido o primeiro que eu li, nas edições brasileiras da revista portenha Skorpio, lançadas aqui pela extinta Editora Vecchi.

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Alvar Mayor possuía um vigor e um lirismo distintos do que eu até então havia visto nos quadrinhos americanos e europeus – e, me arrisco a dizer, não havia visto nos quadrinhos brasileiros, em sua eterna carência de escritores e excesso de desenhistas que “sabem escrever”. A narrativa, a caracterização, a brilhante pesquisa histórica que não excluía o bom artefato ficcional, os clímaxes que se expandiam em certeiras splash pages, grávidas de timing; as paisagens flutuantes em preto e branco e os distantes e belos horizontes de nanquim. A América colonial nunca foi tão próxima e alienígena.

E é nessa junção entre o regional e o mundial, no retratar do local que se sabe global, que Trillo se aproxima de um de seus mestres confessos: Borges. O mais europeu e, por isso mesmo, mais argentino dos escritores argentinos exerceu sobre Trillo tremenda influência, nem sempre nítida. Viajando do onírico para o mítico, do regional para o sexual, Trillo sabia expandir para a página em branco diagramada em sabe-se-lá quantos quadros por segundo toda uma (ir)realidade ao mesmo tempo portenha, européia, cósmica.

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Duas vezes ganhador do prêmio Yellow Kid, do salão de Lucca, Itália, por Melhor Autor Internacional (1978 e 1996); melhor roteirista do ano no salão de Barcelona, em 1984; melhor roteiro em Angoulême, em 1999; a qualidade do trabalho de Trillo não arrefeceu com o passar dos anos e décadas. De Un Tal Daneri (oito histórias totalmente borgeanas sobre um homem em busca de sentido para sua vida, parceria com Alberto Breccia) a CyberSix, da qual foi editor, explorou os diversos aspectos da narrativa e do storytelling. Roteirista, escritor, editor, teórico, era casado com a escritora argentina Ema Wolf, com quem teve dois filhos.

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O impressionante do quadrinho argentino é sua abrangência temnática: ao contrário do quadrinho brasileiro, forte apenas em humor, e do quadrinho americano, onde super-heróis tomam conta, o mercado de  quadrinhos argentino se equipara com o europeu, ainda que não em termos de tamanho, vendas e espaços editoriais – mas com certeza no quesito qualidade. Uma multitude de gêneros se misturam e ganham espaço, de forma literária e espantosamente gráfica, o que faz da HQ argentina um objeto de design quase perfeito, uma sucessão de pequenas obras-primas regadas a literatura, erudição high e low brow e experimentos estéticos. No deserto da cor, retículas rasgam o céu branco, preenchendo-o com nuvens tardias de aplicações gráficas; um mar de ondas de nanquim borra as margens de uma floresta de páginas; Alvar Mayor quer e teme encontrar El Dorado.

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Eternamente desprezado por aqueles que não sabem o que perderam (assim, no passado), os quadrinhos e, mais especialmente, o bom quadrinho adulto permanecem uma forma de arte em contínuo desmanchar e refazer de promessas e potenciais. O quadrinho argentino se mantém, ainda que em momento menos profícuo que nos anos 70 e 80, uma força estética e narrativa sem igual no mundo da HQ. Boa parte dessa força se deve ao trabalho de Carlos Trillo.

Em 2007, em viagem a Buenos Aires, estive em uma das lojas de quadrinhos mais tradicionais do centro. em busca de algum álbum de Alvar Mayor. A loja, minúscula, estava tomada por adolescentes folheando mangá e uma atendente meio emo, que com certeza também só lia e entendia de mangá, não sabia do que eu estava falando quando perguntei por Alvar Mayor. Ela pediu que eu falasse com o dono da loja, um cabeludo cinquentão mais ao fundo. Logo percebeu que eu era brasileiro e, ao entender que eu procurava aquele quadrinho, visivelmente se emocionou. Trouxe do fundo da loja um álbum novo de Alvar Mayor e disse: “Esse é um quadrinho muito querido”.

E não é?

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Alex Mandarino

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