Skate imaginário

Há quase um mês faleceu um dos meus grandes amigos – e só agora tive cabeça para pstar algo aqui. O Dida, que conheci no mesozóico ano de 1989, partiu para a última viagem viking após cinco anos de luta contra a AIDS no interior do Piauí, sua terra natal, para onde tinha voltado em 2001, após quase duas décadas de viagens aqui pelo sudeste cimeriano.

Fotógrafo talentoso e genial, leitor voraz de coisas legais, Dida foi uma das pessoas mais legais e inteligentes que conheci na noite do Rio. Várias vezes saímos juntos para ir a lugares como o Kitschenette, Dr. Smith, Basement, Gueto e outros. Me encontrava na Lapa e tirava uma foto com a máquina da vez, revelando-a ele mesmo com sua alquimia de laboratório e guardando-a na carteira para me entregar semanas depois, quando me encontrasse aleatoriamente. Me dando de presentes livros que ele carregava por aí, já que não via mais sentido em mantê-los depois que já os tivesse lido (foi assim que ganhei uma edição do sensacional Os Campos Perfumados, de Mohammad al-Nafzawi). Pulando ao som do jungle ou do punk nas pistas do Rio, animado e bêbado. Criando sozinho e por iniciativa própria uma biblioteca na Fundação Leão XIII, quando teve que morar ali por longos meses.

Lembro com especial carinho das inúmeras noites de bebedeira na Lapa, em Botafogo, no Baixo Gávea e em Copacabana, quando o Dida sempre tinha algo inteligente e engraçado para dizer e observar. E, especialmente, da madrugada em que, saindo da Dr. Smith com três amigas, andamos de skate imaginário naquele bowling da praça em frente ao Rio Sul, escorregando de costas e com a bunda no concreto, até que um notívago segurança nos interrompesse, com as bizarras palavras “só pode andar de skate com skate aí”.

Se as pessoas legais devem partir e abrir espaço par que fique aqui esse mar de poseurs, só nos resta rir da nossa situação. Mas 2012 vem aí.

Um abraço apertado e um beijo, Dida. Você vai fazer falta, cara. Não cai desse skate imaginário agora.

Dida, ao lado de Valéria e Angélica. Eu não tava aí nesse dia, mas fica a foto. Uma foto, seu artefato favorito.

Posted in Pessoal.

Alex Mandarino

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