Sinceramente

A sinceridade é um conceito bastante mal entendido e mal utilizado nos dias atuais, pós-Big Brother e pós-tribalização mundial. “Ser sincero” não é o bombril moral e emocional, a arma multi-funções que várias e várias pessoas parecem achar que é. E, mais espantosamente, parecem se esquecer que “ser sincero” não é uma virtude por si só. Dizer para uma criança de dez anos que ela tem câncer e apenas mais dois anos de vida é ser sincero? E a forma como isso é dito? Implica no aumento ou não da “sinceridade”?

Claro, usei o exemplo mais extremo, apenas porque exemplos extremos são os melhores para ilustrar todos os aspectos de uma situação (ainda que estes aspectos estejam adulterados pela qualidade hardcore inerente a toda situação extrema). Mas acho que isso ilustra bem como “sinceridade” é relativa. Não é uma qualidade ou uma virtude pelo simples fato de existir, mas pode se tornar uma, dependendo de como ela é usada – e, mais importante, de quando ela não deve ser usada. Saber não ser sincero nos momentos em que isso é importante é uma arte. E, como tantas outras nestes tempos de decadência sem nenhum vestígio de elegância, uma arte perdida.

A sinceridade pode abrir os olhos de uma pessoa nos momentos certos; pode também cegar a mesma pessoa, que, afastada pelo brilho de uma verdade tão brutal, irá desviar os olhos; ou pode ainda simplesmente servir como assertiva de que, sim, a pessoa que supostamente está “sendo sincera” é mesmo uma “pessoa verdadeira”, “sem máscaras”. Nesse caso, a “sinceridade” só serve como auto-engrandecimento. É aquele velho “olha, desculpa, mas eu sou sincero” (ou ainda o similar “eu sou assim mesmo, grosso”. Bom, não seja). Talvez seja um efeito de vivermos em uma época tão calcada pela mentira, pelos efeitos de luzes e pela leviandade, mas esquecemos que determinadas máscaras podem ser bem mais reais e verdadeiras que uma certa espécie de “sinceridade” auto-destrutiva. Se todo mundo falasse a verdade o tempo todo, já teríamos nos destruído mutuamente há séculos.

Não é uma questão de fazer um elogio à mentira, mas ao bom senso. Em várias ocasiões o bom senso – e não uma über-sinceridade – teria salvo tudo. O convívio social e a nossa capacidade de transitar em uma civilização – a própria civilização – foram construídos sobre uma argamassa de mentiras tácitas e mais ou menos aceitas. São mentiras? São. Mas também são verdades, no sentido de que sem elas já teríamos regredido ao estágio primal mais cro-magnon. Algumas mentiras são mais verdadeiras que algumas verdades. Algumas mentiras se tornaram verdades graças à necessidade social, enquanto algumas “verdades” “sinceras” apenas conseguem remeter a uma época ancestral pouco civilizada, sem guts e sem charme. “A verdade nunca é pura e raramente é simples”, acertou Oscar Wilde, como sempre. Ou, como disseram os Titãs quando ainda tinham alguma relevância: “Só os chatos não disfarçam”.

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Alex Mandarino

6 Comments

  1. Oi, Mandarino, tudo bem? Tem também aquela frase de “Maior abandonado”, do Barão Vermelho: “mentiras sinceras me interessam”.

    Beijos.Posted by Maria Cristina at 13:40 Thursday April 16, 2006

  2. E que porra é essa de “verdade”, anyway? Tudo é filtrado pelo olhar das pessoas, quase tudo é subjetivo.

    O que torna ainda mais irritante o “ah, desculpa, mas eu sou sincero mesmo”. É a idéia absurda de que sinceridade é igual a verdade e de que, por ser verdade, só pode ser uma coisa boa.

    That’s stupid.

    Mas estou te repetindo, darling… Ótimo texto, esse!!Posted by carol at 18:40 Thursday April 16, 2006

  3. A sinceridade… pode também cegar a mesma pessoa, que, afastada pelo brilho de uma verdade tão brutal, irá desviar os olhos;

    Como psicoterapeuta assino embaixo. Há horas em que é melhor calar.Posted by Norrin Kurama at 11:42 Friday April 17, 2006

  4. Maria Cristina:Fala! Tudo bem? E é verdade, bem lembrada. Essa frase é muito boa.

    Lupo:Os Titãs se esfacelaram, em parte por causa da saída do Arnaldo Antunes e do nado reis e da morte do Marcelo Frommer. Mas, levando em conta as merdas que Antunes e Reis fozeram solo, acho que teriam se esfacelado mesmo que eles tivesse continuado na banda. Enfim…Posted by Alexandre Mandarino(www) at 12:30 Friday April 17, 2006

    Carol:

    Obrigado, baby!… A “verdade” realmente é bem estranha e subjetiva. Então, quem é o dono dela e a “conhece”? A Ragged Robin e seus´softwares de informação líquida sabe muito bem que there’s no truth. ; )

    : ******Posted by Alexandre Mandarino(www) at 12:32 Friday April 17, 2006

    Norrin:

    Ei, obrigado, arauto!! Gostei dessa.Posted by Alexandre Mandarino(www) at 12:32 Friday April 17, 2006

  5. Concordo com vc… Olha como o Arnaldo Antuner terminou, fazendo “Os Tribalistas”… Deprimente!Posted by Rafael “Lupo” at 14:24 Friday April 17, 2006

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