sorria

A senhora feliz economizou sua vida inteira. Começou ainda criança, ouvindo conselhos de seus pais e avós. Toda sexta-feira, reunía as últimas moedinhas que havia conseguido coletar e as guardava carinhosamente em um grande e bonito cofrinho de porcelana em forma de cisne. Todo fim de mês, ela abria o cofrinho e dava suas belas moedinhas para que seu pai as guardasse em um cofrinho maior, que chamavam de “banco”.
A senhora feliz não conhece muitas coisas que talvez você conheça. Ela sempre foi precavida e isso fez com que seu futuro fosse reluzente, brilhante. Um brilho dourado e prateado ao mesmo tempo, de tão rico que era. A senhora feliz esqueceu como era o rosto de seu pai e nem guardou alguma foto dele, mas nunca esqueceu seu conselho: “seja precavida, minha filhinha feliz!”. Muitas vezes ela sentia inveja de suas amigas que se casaram, namoraram bastante, saíram para dançar, engoliram aquelas gotinhas tão esverdeadas que fabricam no Reino vizinho dos Anões; se flagrava pensando nas conhecidas e ex-colegas de escola que aprenderam a pintar, a escrever, a fazer malabarismos e acrobacias, a colorir os peixes abissais transparentes do aquário municipal. “Mas elas sempre sofreram”, se confortava a senhora feliz. “Sempre foram privadas de várias coisas que gostariam de ter porque foram descuidadas”. E continuava a sorrir, pensando no dia em que finalmente teria economizado dinheiro suficiente para comprar suas pinturas, seus livros, seus peixes já coloridos, suas gotinhas verdes já bebidas para ela e seus próprios namorados. E seu rosto se abria em um sorriso, contente por ter guardado incontáveis moedas – tantas e tantas e tantas! – em seu cofrinho de cisne.

Uma felicidade que somente quem passou 90 anos de sua vida poupando e contando dinheiro pode apresentar! Que suas amigas olhem para ela com pena. Muito em breve ela terá moedas suficientes para parar de economizar e aí – sim! – mostrará a elas quem teve a melhor vida.

Quando chegar aos 95 anos, a senhora feliz finalmente terá a vida que sempre quis. Olhe para ela e sorria: ela não é tão feliz????

Capa do quadrinho Castle Waiting, por Linda Medley.

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Alex Mandarino

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