sombra

O Sombra foi criado para os pulps, revistas impressas em papel vagabundo para as massas semi-letradas da Grande Depressão. Perambulou durante anos em incontáveis contos impressos, em meio a um universo rico em personagens e situações absurdas. Dos pulps, migrou para as ondas do rádio, onde alimentou o imaginário da geração cujo dia-a-dia incluía um conceito estarrecedor chamado “guerra mundial”. Sua gargalhada invadia os ouvidos e cérebros de crianças e recrutas, donas-de-casa e maquinistas. Nos anos 50, sua estética foi transformada pelo peyote e arrombou as mentes de William Burroughs e Jack Kerouac, que o transformaram em um certo “Doctor Sax”. Não satisfeito, o Sombra tomou as histórias em quadrinhos, devorando as mentes das crianças, adolescentes e adultos dos anos 70 com suas aventuras carregadas de sinistro. Nos anos 80, foi upgradeado em uma versão ainda mais bizarra, rodeado por perversões sexuais, AIDS, personagens urbanos esquizóides e estética zappeada. Nos anos 90, chegou ao cinema, em um filme esquizofrênico como o próprio personagem. Quem é o Sombra? Onde ele existe? Nós “existimos” nas nossas casas e cidades, mas onde está Lamont Cranston? Em pilhas de papel amarelado de 70 anos atrás, guardados em porões e bibliotecas? Nas frequências aéreas, sob a forma de ondas de rádio que se recusam a ser recebidas e “morrer”? Na coleção de quadrinhos esquecida por algum fã no quarto dos fundos da casa dos pais, de onde tenta escapar? Impresso para sempre na tela branca de cinemas vagabundos do subúrbio, escondido como, err, uma sombra sob as cenas de Matrix Revolutions? Se o Sombra existiu em todos estes lugares e dimensões, em todas estas formas e tamanhos, sua existência é mais completa do que a nossa? Se ele resistiu a décadas que devoraram nossos avós, quem viveu mais plenamente? Quem é realidade aqui e quem é ficção?
E, mais importante: quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos?

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Alex Mandarino

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