Já estão uivando de novo, como gansos no cio. Desgraçados. Moro aqui há 65 anos e não vai ser um bando de vizinhos desavergonhados que vai me expulsar daqui. Não, senhor. Cheguei com a minha querida Ellen, que Deus a tenha, em Dogshit, Nebraska, no ano de Nosso Senhor de 1919. Tínhamos acabado de casar e chegávamos de nossa cidade natal, a pacata e cristã Cowbutt, Oklahoma. Naquela época as pessoas ainda tinham consideração e respeito pelos outros e isso só se aprofundou ainda mais com a Grande Depressão. Não era como hoje em dia: mulheres usando essas roupas com o claro objetivo de testar a sua fé. E esses casais com cara de cêra, jovens idiotas que só pensam em fazer essas coisas? Sodoma e Gomorra, é onde vivemos! Vou lhe dizer, poucos serão os que ficarão vivos no final. Olha, esses gemidos estão me incomodando. Mas eles se importam? Não! Jogam suas carnes suadas umas sobre as outras cada vez mais, ficam todos melecados, se esfregando nas partes de vergonha, até que eu… até que eu… Me veja obrigado a me sentar, tomar uma boa dose do velho Wild Turkey e deixar os meus fiéis Marlboro me guiarem pelas páginas. Jó; Números; Gênese; o Apocalipse. Sim… é desse que mais gosto. Após memorizar o último versículo, saio recitando pela casa (é o meu favorito!) e abro a porta do quarto. Debaixo da cama. Pronto. Minha Winchester, única coisa em que um homem de Deus pode confiar nesta terra infernal. Vou lá em cima agora mesmo e deixarei a perna mecânica do Arcanjo Gabriel declamar seus ex-votos de chumbo para eles. Sim, Senhor! Ahn? Não, Ellen! Já lhe disse mil vezes! Você não pode vir comigo! Fique aí dentro do armário, rezando, como tem feito há 12 anos. Minha santa Ellen… me espere aí. Eu vou lá e resolvo isso. Subo lá com a Gabriel e pronto, a Palavra de Deus vai tomar conta do ambiente. Me espere aí que eu não demoro. A fé comigo voa.

Capa de “Testament”, graphic novel com adaptações bizarras do Velho Testamento por Bill Sienkiewicz, Kent Williams e outros. Desenho de Steve Rude.

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Alex Mandarino

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