Personal Velocity

Alguns filmes são divertidos, como Monstros S.A. Outros são divertidos e fazem você pensar um pouquinho, como Matrix. Outros ainda são filmes que marcam uma época em sua vida, como Blade Runner. Existem ainda os filmes que você considera verdadeiras obras-primas e é sempre capaz de rever, como Acossado. Mas poucos são os filmes que parecem ter sido feitos especialmente para você, como Rumble Fish e, agora, O Tempo de Cada Um.

Personal Velocity é o melhor filme do ano, na minha modesta opinião. E olha que este ano a concorrência tem sido forte, com títulos como Hulk (o filme que ninguém compreendeu esteticamente) e o último filme do Spike Lee, The 25th Hour. Mas Personal Velocity (O Tempo de Cada Um) tem aquele detalhe que faz a diferença. Não, não sei qual é. É a direção ao mesmo tempo moderna, artesanal e “fotográfica” de Rebecca Miller? São as histórias ao mesmo tempo contundentes e inconclusas, como as nossas vidas? É a participação sensacional das minhas duas atrizes favoritas da geração dos anos 90, Parker Posey e Fairuza Balk? É a minha vida passando por vários processos de “personal velocity”?

É tudo isso junto, claro. Se você ainda não viu esse filme, veja. Mas corra. Ele está apenas em dois cinemas minúsculos aqui do Rio, a diminuta (mas funcional) Sala 3 do Estação e a Casa de Cultura Laura Alvim (!!!). Minta para alguém, dizendo que vai ver outro filme, mas vá ver O Tempo de Cada Um. Rebecca Miller, que dirigiu e escreveu o roteiro a partir de um livro dela mesma, mostra que herdou boa parte do talento storyteller de seu pai, Arthur Miller. Em seus melhores momentos, ela é um Jim Jarmusch que cresceu e parou de piscar o olho modernamente pra gente.

Aliás, o que tem acontecido com os cinemas, ou melhor, com o público de cinema do Rio? Personal Velocity está em duas salas apenas e que, juntas, não devem somar 400 lugares. The 25th Hour, o sensacional filme de Spike Lee, esteve em cartaz apenas por uma semana e meia no liliputiano Estação Paço. Mas as pessoas lotam eventos como Anima Mundi e até mesmo o Festival de Cinema do Banco Nacional (ainda é esse o nome? Ou é Petrobras, sei lá). Me leva a crer que temos um público grande, sim, mas que não gosta de cinema, gosta de aparecer em eventos que supostamente estão na moda. Por que, se gostassem de cinema, estariam vendo estes filmes.

O Rio de Janeiro é uma terra de ninguém, desolada econômica, estética, social e culturalmente. A paisagem de nosso circuito cultural e/ou noturno dá frios na barriga, de um vazio de dar inveja ao cenário de Mad Max. Cinemas vazios, filmes sensacionais que ficam dias em cartaz, galerias – como o Espaço Helio Oiticica – menos frequentadas que o Círculo Polar Ártico. Mas eventos anuais como Anima Mundi arregimentam um exército de frequentadores, que se acotovelam no foyer do CCBB como em um baile funk. Se amam cinema e animação tanto assim, por que as salas de cinema estão vazias? Vai ver, porque não é capa do Rio Show ou algo assim.

Juro que eu ia falar do filme e não queria cair nessa lenga-lenga, mas é realmente muito triste ver uma cidade com tanto potencial cultural ficar à mercê de um público tão pouco… interessado.

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Alex Mandarino

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