Sleeper

Você é um agente trabalhando disfarçado, infiltrado em uma organização que é o puro mal. Só que você está TÃO disfarçado que só um cara da sua agência sabe sobre este trabalho. Agora imagine que este cara entrou em um coma profundo. Você não tem saída e nem como voltar atrás. E mais: você não sabe se quer voltar atrás.
Esse é o ponto principal de Sleeper, nova série em quadrinhos escrita pelo excelente Ed Brubaker, o mesmo que escreveu Deadenders e algumas recentes – e melhores – histórias de Batman. O novo título acabou de chegar às lojas americanas pelo selo Eye of the Storm, linha adulta da Wildstorm. “É uma mistura de The Sopranos (série de TV de extremo sucesso nos EUA atualmente) com Donnie Brasco e John Le Carré”, disse Brubaker. “Holden Carver está infiltrado em uma organização há quatro anos e agora a única pessoa que sabe a verdade sobre ele está respirando graças a uma máquina. Subitamente, aquele telefonema que poderia tirá-lo da organização não pode mais ser feito. Todos os caras maus acham que ele é um bandido – e os mocinhos acham a mesma coisa. Ele nem tem como enviar seus relatórios mais, a não ser que o faça anonimamente. Ele não tem como escapar dessa arapuca, então continua galgando os escalões desta organização”, detalha Brubaker. A série tem escassas ligações com o universo Wildstorm e pode ser lida sem que se tenha nenhum conhecimento prévio dos demais quadrinhos da editora. O tal cara em coma, por exemplo, é John Lynch, conhecido dos fãs de GEN 13. Mas as poucas conexões param por aí: Lynch, por exemplo, só aparece em flashbacks. Brubaker, especialista em histórias de crime que misturam um certo tom noir com filmes policiais dos anos 70, sabe do que está falando: além de já ter escrito excelentes quadrinhos do gênero, como Scene of the Crime, ele passou por situações e profissões, digamos, desabonadoras durante sua adolescência e os vinte e poucos anos, como pode ser conferido no quadrinho autobiográfico Lowlife. “Eu sei o que as pessoas podem fazer com as outras quando estão bem no fundo”, diz o escritor.
O artista da série será Sean Phillips, que já desenhou Kid Eternity, Hellblazer e Uncanny X-Men (bem como a própria Scene of the Crime). Mas, claro, uma das preocupações de Brubaker é com o atual estado das coisas no mercado de quadrinhos, ameaçado por vendas cada vez mais diminutas. “Séries como 21Down, que são boas, acessíveis, o tipo de coisa que você veria se fosse um seriado de TV, vendem muito mau. Global Frequency, por exemplo: Warren Ellis nunca escreveu tão bem. O primeiro número de Global Frequency vendeu muito bem (para a época atual) e, já pelo número 5, havia caído para abaixo do limite de 20 mil exemplares. Isso sim é um crime”.
“Parece que tudo que é creator-owned ou novo precisa travar uma batalha para sobreviver no universo dos quadrinhos mainstream. E isso é triste, porque são essas séries que têm a capacidade de atrair um novo público para os quadrinhos”, continua Brubaker. “Eu tava falando com um amigo outro dia que, se Neil Gaiman fosse um iniciante hoje e Sandman tivesse acabado de ser lançado, provavelmente estaria prestes a ser cancelado, vendendo o que Lucifer vende. E com isso não estou diminuindo o talento de Neil, mas pessoalmente acho que Mike Carey é um escritor tão bom quanto ele e ninguém lhe dá atenção. Por quê?”.
Brubaker também não inveja os donos de lojas de quadrinhos: “Eles têm que trabalhar em cima de apostas do que vai ou não vender, em cima de pouca ou nenhuma informação daquele Previews. E se os escolhidos não venderem, bom, terão que comer as revistas. Então a gente acaba tendo um monte de lojas que só vendem por assinatura, o que impede as vendas de crescer. Aposto que 90% dos leitores prefeririam simplesmente encontrar o que eles querem logo ali, na prateleira”. Essa situação é um dos motivos que levaram Brubaker a fazer o mesmo que escritores como Brian Vaughan (Y- The Last Man) e Geoff Johns (Hawkman) já fizeram: satisfação garantida ou seu dinheiro de volta. Sim, o mercado de quadrinhos é tão inacreditavelmente mambembe que o leitor de Sleeper 1 que não gostar da revista poderá devolver seu exemplar e ter sua grana reembolsada. “Desde que meu editor está se arriscando em tentar algo novo, só posso agir da mesma forma. Na esperança de dar uma chance aos leitores e lojistas e porque amo esta série e tenho total fé nela, vou oferecer uma garantia em Sleeper: quem comprar Sleeper 1 e não gostar, poderá me enviar um e-mail (edbrubaker@hotmail.com) e eu mesmo enviarei seus 3 dólares de volta. Se você gosta de seriados como The Sopranos ou Alias e quadrinhos como 100 Bullets ou Alias (a outra Alias), então tente Sleeper, porque é o mesmo estilo”.
Pessoalmente, acho que Brubaker sempre fez um excelente trabalho. E pelo menos está colocando a carteira e o dele na reta. Abaixo vão as capas dos números 1 e 2:

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Alex Mandarino

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