Sunday, February 16, 2003 at 11:32 AM

Como alguém consegue trabalhar de 9 às 20, todo dia, durante semanas, meses, anos, décadas? Encontrando as mesmas pessoas, tomando café e Coca-Coca Light em cima da máquina de xerox, rindo para o chefe quando na verdade gostaria de estar, sei lá, pescando? E as pessoas que trabalham nos feriados, Natal, reveillon, Carnaval? Eu sei como é. Been there, done that. Mas que é estúpido e inglório, é.
E sem motivo: a jornada de trabalho diária é um resquício do início da Revolução Industrial, quando as pessoas eram necessárias para “fazer a sociedade progredir” criando novos modelos para a Ford, máquinas de refrigerante e calculadoras. Mas, hoje, praticamente 99 % dos trabalhos e profissões não possuem a menor necessidade de acontecer em uma base diária. Quem precisa de jornais diários? De carros sendo montados diariamente? Coloquem máquinas fazendo os serviços mais estúpidos, como receber dinheiro atrás de uma roleta em um ônibus e realoquem estas pessoas para outras áreas (entregar cartas, por exemplo) que têm necessidade de ser diárias e ainda não podem ser feitas por um bom robô. Com isso, poderiam ser criadas turmas diferentes de trabalho. Por exemplo, você trabalharia às segundas e terças e outro sujeito às quartas e quintas (as sextas seriam incluídas no nosso lindo e helênico fim de semana). Tenho certeza que o mundo não iria piorar e nada realmente imprescindível e essencial faltaria. O desemprego iria diminuir e as pessoas teriam tempo ocioso. Não há nada pior do que o termo “tempo livre”. O tempo É livre, você faz com ele o que quiser. A ociosidade é um direito humano universal (ou deveria ser).
Não fazer nada, coçar o saco, olhar para o teto, ir à praia, fazer porra nenhuma, ouvir música, ir ao cinema, trepar, sair para dançar, são sinais muito mais claros da existência de uma civilização refinada e inteligente do que a presença diária de um monte de imbecis inúteis e sorridentes atrás de suas mesas. Só precisa trabalhar todo dia quem não tem nada melhor para fazer.
Sem falar que nossa civilização e as melhores descobertas (como o Atari, o ecstasy, o veleiro, o livro e o sampler) só aconteceram porque tinha alguém com tempo livre para pensar nelas, sem a obrigação de preencher formulários, carimbar papéis, escrever matérias inúteis e tendenciosas que ninguém lê. Por que o metrô precisa de um sujeito guiando a maldita máquina? Coloquem outra máquina ali, elas fazem isso melhor do que nós, humanos. E assim o coitado poderia ser pago para ficar em casa e, sei lá, montar um grupo de pagode ou criar um blog “feminista”. Coloquem máquinas no lugar de gente que não é imprescindível e paguem-nas para ficar em casa coçando.
Chega dessa merda protestante de que o trabalho dignifica o homem. Dignifica porra nenhuma: emburrece, embrutece, alcooliza, cafeiniza, enerva, estressa e escraviza. Andem pelo Centro da sua cidade e olhem em volta: o quanto daqueles prédios enormes, aquelas salas, janelas que parecem os olhos de um cego e carros são realmente necessários? Uma diminuta percentagem. Ficando em casa, as pessoas pararão de criar essa quantidade inútil de plástico, vidro e metal que atulha as ruas. Terão que finalmente se entender com seus pais, cônjuges, ler algo, pensar, enfim, fazer alguma merda. Terão que finalmente começar a viver. E perceber algumas coisas tão óbvias…
Comece desde já. Exija o seu direito de não fazer porra nenhuma. Exija ser substituído por uma máquina. Coloque um computador ou robô no seu lugar. E finalmente comece a FAZER alguma merda. Mas a merda que você quer, não a que lhe obrigam a criar.

Posted in Disinfo and tagged , , .

Alex Mandarino

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *