“Seu pé no acelerador é a melhor forma de cortar a conversa. O carro está no controle do papo agora, a velocidade o único tema possível. Dez metros adiante, o retrovisor lhe cutuca e você percebe que está sendo seguido. Quatro carros da polícia.
— Não tinha um carro maior? — pergunta Maksim. — Tá apertado aqui.
— Esse é o mais rápido, cara — você finalmente fala. — Lamborghini Diablo, Eremita, sente o estofado do banco dele lambendo a sua bunda. — Você acelera e divide sua atenção entre as ruas noturnas, os fantasmas de carros no retrovisor (polícia invertida e do avesso) e o para-brisas. E então continua, as frases acompanhando o ronco do motor:
— É uma história bonita. Tudo começou com um Diablo VT Roadster que conheceu um lindo sistema Lotec dual-turbo, que quis trepar com seu já robusto V-12. O filhote é essa coisinha aqui, parida por Uwe Gemballa, o mesmo suíço que deu ao mundo a maravilha que é o Porsche Extremo. Claro, eu e o Oito de Paus, melhor companhia pra se matar um Southern Comfort e adulterar um carro, tratamos de mudar tudo. Suspensão reforçada, chassis mais parrudo pra aguentar o peso das coisas que vocês meteram e, claro, do gigante viking aqui do meu lado.
Touji só conseguia balbuciar:
— É r-rápido?
Você olha pra ele pelo retrovisor principal e sua eloquência se traduz em um “Humpf” meio agudo. A conversa volta para as suas mãos e pés. As ruas estão vazias a essa hora da madrugada, mas Roma não é famosa por suas largas avenidas. Os quatro carros de polícia se espremem em gula atrás de você, tentando lhe alcançar. Você é um octopus, um polvo do asfalto, Kali tala larga. Suas 23 mãos se espalham rápidas pelo volante e marcha, seus tentáculos dianteiros tocam como harpas o acelerador, o freio e a embreagem.
— Se todas as estradas levam a Roma, todas as estradas de Roma levam a algum lugar. É pra lá que a gente vai, é só ficar tranquilo e em silêncio. Tô tentando me concentrar aqui.”
(Trecho de Guerras do Tarot, de Alex Mandarino, em breve pela AVEC Editora).
‪#‎guerrasdotarot‬

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Alex Mandarino

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